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"Milton Botina" pelo Batata.

Dois amigos, desde a infância. Milton e Batata, compadres e amigos. Viveram e se amaram, discutiram e beberam todas. O Milton é dois anos mais velho que o Batata, nascido em 1938. Quando o Milton Lelis Marques morreu, em abril de 2004, aos 67 anos, o Batata estava varado de bêbado e não foi ao enterro. Mas escreveu este texto, de porre, e o publicou com o título Páscoa. Ei-lo, na íntegra, fechado às 15:09 do dia 9 de Abril de 2004.

PÁSCOA
por Luís Carlos Castro Palma

Falam, re-falam. Dizem, contradizem. Voltam, revoltam. Fazem Congressos, Onus e, Concílios e mais reuniões de Pais e Mestres.
É o andamento natural dos humanos enquanto têm almas ajustadas à si próprios e, no momento, diferem um futuro eterno. Temporários sentem e passam discutir a eternidade enquanto ignoram os anos viventes dentro deles. Amanhã é hoje. Ressurreição. Esse é um assunto nosso, de fé, para ser discutido cara a cara com Quem a realizou. Lembro, Anjo da Guarda não assiste, do cujo, o velório. Será que o meu também está triste? Anjo Milton Céu. Feliz.
Re-falo: é muito fácil perder o melhor amigo da vida toda até hoje. O hoje fica assustador. Contradigo, fico alçado com o passado, presente e o futuro só porque o presente domina o momento. Sinto dor. Dor Pura. Aquela que dói sem ter um lugar para doer. Ela vem inteira e exige um lugar para não sentir ela inteira. Essa dói. Dói sem ponto final.


Promessa Paga

Em 10 de Janeiro de 2010 coloquei no ar o Blog do Batata, cumprindo a promessa que fiz a ele quatro dias antes do seu falecimento. Me senti bem ao fazê-lo, mesmo sendo um blog póstumo. Afinal, morrem os homens mas os pensamentos ficam, desde que publicados e lidos. Dezembro de 2009 - quanto é incerto os rumos e destinos de todos nós. O José Fernando de Castro Figueiredo e o Luís Carlos Castro Palma, dois primos insubstituíveis em todos os aspectos, mortos em circunstâncias absolutamente imprevisíveis, os dois em Dezembro de 2009.
Fiz um filme para cada um deles, desses dois grandes amigos de 56 anos de convivência, pois sempre gostei de gravar, filmar e fotografar, acumulando um acervo importante da família.
Os arquivos estarão sempre à disposição de quem quiser, pois, mal comparando, como dizia Pasteur: "Toda teoria deve ser mostrada na prática e todo conhecimento não deve ser escondido".
José Márcio Castro Alves

Arranco tatu sem fazer força.



Segundo o escritor Paulo Dantas, biógrafo e amigo de Monteiro Lobato, literatura é denúncia, referindo-se aos escritores Euclides da Cunha e Monteiro Lobato. No caso do Luís Carlos Castro Palma, o Batata, contratado para escrever crônicas semamais sobre a vida caipira, ele desenvolveu uma narrativa de memórias e causos que ouviu contar, sempre enaltecendo os personagens que marcaram sua vida. Neste texto, lavrado em 3 de março de 2003, o herói é Matias, um homem simples, empregado de fazenda.


Arranco Tatu sem fazer força
por Luís Carlos Castro Palma - o Batata

Era fácil reconhecer o dia em que Matias ia tomar uma bebedeira. Vestia, no pescoço, um lenço de seda azul com listras amarelas. Para ajustá-lo, tipo nó de gravata, um broche anelado, feito de chifre, que representava a cabeça de um touro guzerá. Peça bem feita destacava os olhinhos que imitavam rubis (Matias jurava que eram verdadeiros). O adorno era o seu xodó e lembrança de uma viagem a Belo Horizonte.
Caboclo lavrado no machado, Matias era desempenado, alto e forte. Feições que chamavam a atenção pelo queixo forte, nariz de gavião e incríveis olhos esverdeados. Quando moço, ele que era o xodó... das moças.
Casado com Minda (Delminda), criava com paixão um casal de filhos. Era um dos melhores trabalhadores da fazenda. Executava, com gosto e competência, qualquer serviço. No meio dos camaradas mostrava-se alegre, xistoso e muito bom companheiro. Perto de estranhos, ficava meio caladão sem esconder a simpatia. Era muito religioso e todas as sexta – feiras, na Quaresma, convidava o pessoal para cantos e terço na sua casa. Sempre dizia: "Quem sabe amar, ama Deus".
Era econômico, pensava no futuro dos filhos e no bem-estar da família. Sempre aproveitava muito bem a terrinha cedida pela fazenda para os mantimentos; no pastinho da colônia nunca faltou uma criação de sua posse. Horta farta, bem formada e cuidada. Mangueiro e chiqueiro nutrido de porcos. A sua capoeira de aves era melhor que a do patrão e a frangada carijó o seu orgulho. Nasceu na roça, sabia viver na roça.
No sábado qualquer, a mais ou menos cada dois meses, ele tomava um banho quente e bem caprichado. Vestia calça bem passada a ferro, camisa quadriculada. Barba feita e cabelo aparado pelo Dadinho, barbeiro da fazenda. Botinha sanfonada feita pelo Delcidio Malaspina. Preta, para ser luxo. Gastava meia-hora para ajeitar o lenço. As onze e meia, subia no carroção da fazenda que levava o pessoal até a venda do "seo" Miguel. Nestes dias sempre levava um saco onde grunhia uma leitoa bem escolhida. Naquele carroção sempre ponteava uma viola.

Assim eram os agregados

Passado o entusiasmo da alegria da chegada e bebidos os dois primeiros goles, Matias chamava "seo" Miguel para um particular. Negociavam a leitoa e o vendeiro sempre encomendava uns frangos. Tinha o dia na frente. Jogava malha, truco e cantava com o violeiro Zé Tindolfo. Bebia cachaça com capilé, comia manjuba salgada e lingüiça curtida. Tornava-se um daqueles raríssimos bêbedos alegres e sem confusões. Todos conheciam a sua alegria, participavam e respeitavam. O seu brado etílico era: "Hoje eu arranco quarqué tatu sem fazer força". A turma gargalhava e repetia o grito.
Chegava em casa pelas nove horas. As crianças já dormiam. Minda o esperava com amor e uma canja gorda. Sempre ganhava um agrado: um corte de tecido, um vidro de perfume ou uma bijuteria vistosa. Como ela o amava! As crianças ganhavam doces e roupinhas. Matias bebia a canja numa caneca de folha e contava as vantagens do seu dia. Não dormia, desmaiava. A mulher, que havia ajudado ele se despir, só agora conseguia tirar o broche de cabeça de touro e o lenço de seda.
Acordou virado para um lado e o mundo para o outro. O teto girava. A boca tinha o gosto de rojão estourado e a língua parecia uma pedra de amolar canivete. A cabeça, por dentro, não tinha direção, semelhava uma jaca madura que estava balançando para cair. O corpo estava cheio de coceiras mas ele não sabia onde elas se localizavam exatamente. Rangeu os dentes: "Mardita Tatuzinho, nunca mais".
Minda o esperava na cozinha. Ele chegou abatido e meio sem graça. Bebeu quase um copo de café bem quente e foi se lavar, excepcionalmente, na bica de lavar roupa. Na volta, cruzou com Dadinho, que passava pelo terreiro. Não se falaram, mas ambos tiveram uma crise de risos. Na cozinha, comentou com a mulher enquanto empoleirava um filho em cada perna; "Minda tive cada sonho. Sonhei com um corguinho limpinho, cheio de lambari de rabo vermeio. Depois veio outro, esse ruim. Um bando de capetas montou uma serraria num lugar redondo. Não paravam de serrar com aquela serra de fita. Aquela barulhenta igual a da serraria aqui da fazenda. Fui descobrindo que o lugar oco era o oco da minha cabeça. Dói até agora ". Riu e se voltou para as crianças: "E a minha filhotada, ganhou doce? Oceis é o sempre do pai".


Um caipira de opinião.


Escrito em 16 de Abril de 2003

Conservamos a pontuação original do autor, Luis Carlos Castro Palma, o Batata.

Terezo, nasceu neto da Tereza, que era escrava. Alto, ombros largos e manoplas capazes de sustentar um garrote marrudo pelas ventas. Barbicha rala e branca, tipo “ mola de binga“. Vozeirão baixo e profundo, que se escutava de longe. Era de natureza calma, gestos comedidos e a entonação das suas frases tinha algo de eclesial. Reflexo de uma alma mística.
Na juventude, manteve a fama de ser ateu. Coisa rara na colônia de uma fazenda ali pelos anos cinqüenta. Não discutia religião. O seu argumento era irrespondível:“ Nem se Deus viesse conversar comigo, eu ia acreditar nele”. Por menos que pode parecer, não era um revoltado. Alguma coisa aconteceu, dentro ou fora dele, que abafou a sua fé. Isso lhe causava muitos aborrecimentos, por exemplo: não havia na colônia uma mulher, casada ou viúva, que não tentasse heroicamente converte-lo ao bom caminho. As moças tinham medo e algumas diziam que ele era “ primo do diabo “. A mãe chorava, o pai dizia: “ batizar, batizei . Nunca pedi pobrema“. A descrença calma do Terezo incomodava os outros e muitos não entendiam o "porque" do padre Geraldo trata-lo tão bem e até existir uma certa amizade entre os dois.
O rio descia a sua água com moleza. O sol da tarde esfregava cores incríveis. Absorto, Terezo assustou quando percebeu a presença de uma pessoa perto das costas. Virou rápido e deparou a figura de um velho, muito velho. A primeira impressão foi a de que o ancião era cego. Maltrapilho, tremulo ele parecia a mais frágil e solitária das gentes . A segunda surpresa do Terezo foi o tamanho do saco que ele carregava nas costas. Levantou-se, ficou de frente e saudou. Resposta em inesperada voz forte e firme. O chegado colocou o saco no chão e Terezo notou que era muito leve. O farfalhar, ouviu, que eram folhas. Relence, lembrou : ali , por aquelas bandas, aliás, mais para frente, no socavão da Serra do Papagaio, morava um ermitão que entendia a medicina antiga dos antigos . Preparava remédios com ervas e raises, e mais, além de dominar as rezas mais escondidas e bravas. Muitos diziam que era um doido. Só podia ser ele. Conversaram. Terezo esqueceu a vara de pescar e conversaram mais. Noite chegando, acenderam fogo, assaram peixe e conversaram mais. Terezo ia pernoitar na beira do rio para aproveitar o domingo. Passaram a noite conversando. Rio quente pelo sol e a conversa ainda mastigava o assunto deles. Um para cada lado. Despediram os corpos e foram embora.
Terezo creu. Não mudou , apenas mudou uma fé abafada na cabeça para reforçar uma calma , antiga , no coração. Creu em si mesmo porque o ancião lhe desejou, no encontro, uma “ bastardes “ com o amor manifesto no mesmo. Uma alma mística que procurava companheira.



Ana morreu.

Texto do Batata escrito em 4 de Julho de 2002. Boa leitura.

Ana Morreu, por Luis Carlos Castro Palma.

A estradinha até parecia mais amarela embaixo daquela luz do sol das duas horas. Cósca, a cadela, puxava a rota com dificuldade. Magra e manquitola arfa o fôlego. Rastro de três patas na areia quente que coleia o cerrado bruto de natureza e feição. Exausta, resolve procurar sombra. Uma lobeira mais perto. Ajeitou-se ao estender o focinho. Barulhinho. Uma carreira de saúvas fazia oscilar retalhos de folhas. Para não morrer, dormiu. Morreu dormindo. Pura inanição.
Matilha de nove trelas de veadeiros treinados põe respeito a qualquer buzina. Rastro do veado achado, a cachorrada se estrela no ponto. Desatrelados, o cão-mestre Lapórte*, com uivos de chamar demônios, abriu a tribuzana da caçada. Tardinha, volta para a sede. Caçadores lembrando pormenores, cavalos ainda com branquejos da espuma do suor e cachorrada no trote mole do cansaço e do festim das duas presas que devoraram ainda mal mortas, caminhava na frente.
Princesa, cadela nova e espevitada ainda, saiu da estrada. Ganiu um alerta e sustentou. Juntaram latidos. Esporas nos cavalos. Uma paupérrima cadela morta. Caçoadas. Lapórte* saiu meio de lado, levantou o focinho, entesou a cauda e rumou mais para o fundo do cerrado. Instinto, seus lugares-tenentes Toronto e Lucrecia o seguiram. Agora era toque de achado. Acorreram todos.


Gervásio gostava da Ana e ela gostava do Tonico, do retireiro Toniel, do maquinista Dedinho e do primo Zé Antonho. Era ela não tão bonita de chamar atenção de longe. A cor do mel da jataí, os olhos pertencentes da novilha guzerá, cabelos negros apechinhados como caixa de marimbondos agredidos e uma faceirice natural da fêmea que percebe que é fêmea. De perto, chamava a atenção. Mais perto, tornava-se doce e acanhada. Trabalhadeira e honesta como nenhuma.
Amava todos eles porque simplesmente gostava de amar. Aos dezessete anos os corações têm forças de muitos corações e, às vezes, a cabeça sai procurando por todos eles.
O velório, na colônia, seguia tão triste que não havia choro. Ele estava embutido no safanão que deram ao roubar a vida. A morte parecia não ter ficado para valer. Ainda esperavam que ela pedisse desculpa pelo engano e fosse embora meio sem graça.
A senhora, servindo a xícara de café, disse para o delegado de polícia: "Luizinho (ele é filho dela), não concebo acreditar. Para ser advogado tive orgulho, mais porém para ser advogado delegado de polícia não concebo dormir. O teu pai te chamar para ver a Aninha estrompada. Ela, a coitadinha, ainda hoje cedo veio aqui trocar três ovos por uma ração de fermento - fungou e fingiu enxugar os olhos no avental – Mataram ela longe. Foi o estropício do Gervásio do caminhão da linha de leite. Nossa Senhora viu, prende ele".
Pai e filho sorriram. Estavam certíssimos. Sabiam que o assassino da Ana era eu, aquele que precisava escrever uma estória.

A lição da carroça.





A Lição da carroça


Artigo escrito em 23 de Março de 2002 às 6:29 da manhã.

Aquele dia não teve escola. Um enxame de abelhas voejava na boca do sino e a professora resolveu dispensar a classe. Os alunos, enquanto desciam acompanhando a mestra, mal escondiam a alegria pela fatalidade acontecida. Professora disse; “ Fiquem em casa. Não troquem e nem suje a camisa do uniforme. Vou pedir para o Marcilio espantar as abelhas. Vocês vão para casa e fiquem esperando o sino tocar. Virem nos pés e voltem para a escola. Vai ter aula”.
Nove horas e meia, nada de sino. Tunísio ajudava a mãe à catar feijão quando o seu pai chegou meio com pressa. “Moleque tire essa camisa branca e vem me ajudar. Não tem escola pruqe o patrão mandou, Mandou eu buscar quarenta teia ali nos Bandeira. Avie pra me ajudar”.
Montaram na carroça e foram buscar as telhas na fazenda vizinha. Ali, para quem conhece sabe, a estrada sobe um trecho da serra e tem uns dois pedaços de pedra, logo depois da curva da capoeira à canhota.
Carroça reforçada e de rodas grandes trelava dois burros. No serviço, só estava o Paçóla, cumpridor para levar a carroça e agüentar nos cascos a descida daquelas dez arrobas de telhas em cima da carroça que tinha breque. Fomos e voltamos com sucesso.
Banho gostoso, a água até parecia mais quente. O Toniquim, meu irmão, tinha arrancado aquele dente mole. Fome, eu estava vazado e meu pai não chegava. Mãe Deolinda serviu o jantar sem falar nada. Dormi de cansaço, sem saber que era dia de pagamento e meu pai ia chegar mais atrasado .
Perto de uns seis depois, no sábado à tarde, ele me convidou para ir até a venda do “seo” Miguel para buscar uma “banda “ de capado, compra do patrão . Fomos na mesma carroça, No caminho reparei para ele que a carroça fazia muito barulho. Paçola, forte e rápido. Disse: “Espere.”
Na volta, mestrou de pai, “ Bote reparo: quando a carroça está vazia, faz barulho, carregada não faz tanto. É que nem a conversa da gente”.