Batata, fotógrafo afamado, mas só na cabeça dele.

O Batata sempre se apresentou como fotógrafo e jornalista de grandes cadeias de jornais. Vejam algumas pérolas tiradas da sua antiga Pentax 35mm
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João Garcia escreveu: O Batata foi o rei das façanhas.

Luís Carlos, o Batata, e o amigo João Garcia
foto J. Cirilo

por João Garcia Duarte
Honorinho nasceu em berço esplêndido. Quando veio ao mundo certamente muitas coisas aconteciam nesta terra. O rio Amazonas, por exemplo, descia lento pelas selvas e um condor aproveitava as termas sobre os Andes peruano em lentos e grandes volteios a procura de algum animalzinho lá embaixo que pudesse matar.
Ele nasceu pequeno, uma coisica no colo da mãe, sempre enrolado num cobertozinho , novo e colorido. Com o indicador comprido a mãe afastava um pouquinho a coberta para ver seu rostinho, para certificar se estava respirando. Sempre estava, com aqueles olhinhos rasgados e fechados, os cabelos suaves, muito pretos. Era o grande, o maior amor que lhe acontecera.
De família de fazendeiros, também casara-se com um homem rico dono de gado, roças e até engenho de açúcar. A gravidez veio logo no primeiro mês após o altar. Passeando pela pracinha da cidade, nas manhãs tépidas e sem vento, ia descobrindo seu rostinho para mostrar aquela coisica querida ás amigas que se aproximavam.
Mamando no peito, Honorinho foi ganhando corpo. Quando tinha fome chorava muito e movimentava as perninhas exigindo o peito da mãe. O médico da família dizia que tinha muita saúde e que seria um homem muito forte.
De fato, o tempo foi mostrando que nada abatia Honorinho, nenhuma doença, nem gripe o danadinho pegava. Ganhava caixa e era forte como um bezerrinho zebu. Era forte, mas curtinho. O que um dia provocou o comentário da mãe ao pai:
- Honório, o Honorinho vai ficar baixinho...
Honório parece não ter prestado muito atenção ao que dissera a esposa: apenas fez um bilu-bilu carinhoso nos beicinhos do bebê e sorriu.
E assim foi crescendo Honorinho, rodeado de gente e de amor. O pai chegava da fazenda cansado, suado, retirava o chapéu e beijava suavemente o seu rosto. Logo suas perninhas curtas deram os primeiros passos, levaram os primeiros tombos. E não demorou Honorinho já estava correndo pela casa, depois pela pracinha. Aquela coisinha pequena se movimentando como um corisco por entre os móveis da casa e a mãe pressurosa correndo atrás para retirar da sua frente coisas perigosas: vasos, copos, pratos, garfos. Na pracinha, era soltá-lo no chão e Honorinho já disparava em direção as rosas coloridas do jardim. Um dia, espetou-se num espinho. Mas, para espanto da mãe, não chorou, chupou o sangue que lhe saía do dedinho.
O pai Honório morreu muito cedo, uma febre desconhecida o levou e Honorinho nem chegou a conhecê-lo, a lembrar de seu rosto.
Muito pequeno, a morte do pai parece que não abalou Honorinho, começou a falar no tempo certo e mostrou-se logo um menino ativo e muito curioso: ficava tempos olhando figuras em livros que obrigava a mãe a derrubar no chão da sala para seu deleite diante de tantos coloridos. E não demorou também a começar a fazer perguntas desconcertantes:
- Mamãe, por que a gente não tem rabo?
Foi à escola e se destacou por surpreendente caligrafia para um menino daquela idade. Sua letrinha parecia um desenho de bom gosto. Se mostrava curioso, interessado, a tudo perguntava a professora. Para muitas das perguntas de Honorinho, a mestra não tinha respostas.
A mãe acertara: Honorinho teria estatura pequena, tanto que na escola, na percepção rápida das crianças, ganhou o apelido de Tampinha. Uma coisa que a mãe não esperava e foi descobrindo aos poucos, é que Honorinho não enxergava bem. Por isso, aos sete anos, passou a usar óculos.
- Tampinha! Quatro Ôio!- gritavam os moleques da escola.
Honorinho chegava chorando em casa:
- Mamãe, eles estão me xingando...
- Xingando? De que, meu filho?
- De Tampinha, de Quatro Ôlho...
- Não liga não, meu filho, eles são bobos...
A mãe era ainda muito jovem e não demorou a casar-se pela segunda vez, com um parente e logo começaram a nascer os filhos do segundo casamento: três. Nunca se conseguiu descobrir se o segundo casamento da mãe, de alguma forma, afetou Hororinho.
O fato é que de família muito católica e morando em frente à igreja matriz, Honorinho desde cedo freqüentou com assiduidade o templo católico. E estreiou como anjo na procissão do Santíssimo: aquele menininho de óculos, compenetrado, com duas grandes asas brancas pelas ruas da cidade em passsinhos sizudos. Não demorou, tornou-se coroinha, respondendo tudo em latim. Como aprendia com facilidade! O padre, um espanhol retaco comentou com a mãe:
- Honorito és um gênio!
Todos esperavam, quase tinham certeza, que Honorinho seguiria a carreira eclesiástica, seria um padre, um bispo, porque não?
Ao superar com facilidade os quatro primeiros anos do grupo escolar na cidadezinha , nada mais acertado do que mandá-lo cursar o ciclo ginasial em colégio interno na cidade grande. De lá, certamente Honorinho sairia mais preparado para a missão a que estava destinado: uma bonita carreira que certamente galgaria com brilhantismo todos os degraus da Santa Madre Igreja Católica. A mãe chegou a sonhar com alguém anunciando no alto falante do Vaticano: agora ouviremos as palavras de Sua Santidade, Honório VI! E ele aparecia naquela ampla janela em vestes brancas acenando com gestos suaves aos povos do mundo.
Do tempo que Honorinho passou no colégio interno as informações são escassas, pouco se sabe. Apenas que quando a mãe foi buscá-lo para passar as férias em casa teria recebido um advertência do padre responsável pela turma dos Menores: é um bom aluno, mas muito mentirozinho.
A mãe não se preocupou, passou suavemente as mãos em seus cabelos e pensou : mentirozinho não; imaginativo. Mas no carro, a caminho de casa, com muito jeito ela resolveu adverti-lo:
- É muito feio mentir, meu filho...
- O que é a mentira, mamãe?
- Aquilo que não é a verdade?
- E o que é a verdade, mamãe?
A mãe, de boa educação, mas de instrução limitada, e amor ilimitado ficou em dúvida e em resposta apenas lhe acarinhou mais uma vez.
Mas como na vida nem tudo que reluz é ouro e nem todo coroinha chega a papa aconteceu o mais provável: Honorinho não seguiu carreira eclesiástica. Aliás, nenhuma. Terminado o ginasial e o colegial sempre com boas notas, ninguém sabe porque , parou de estudar. Voltou para a casa da mãe na cidadezinha e lá ficou. Deu de freqüentar a bares e a beber muitas cervejas. Ninguém conseguia entender como Honorinho com aquele corpo franzino agüentava beber tanto. Varava duas, três noites e dias sem dormir, só bebendo. Depois compensava: dormia dias seguidos. Nunca se queixou de dor de cabeça ou ressaca. Era mesmo um forte.
Com a morte do pai, um administrador de confiança cuidava das fazendas, dos negócios. Dinheiro não faltava e Honorinho torrava dinheiro à vontade. A mãe, extremamente apaixonada por ele, nunca o recriminava: a Honorinho o que é de Honorinho, isto é, tudo.

Se Honorinho marcou sua infância e primeira juventude com muito estudo e religiosidade, a terceira parte de sua vida, de fato a mais importante, foi marcada pelos bares, bebedeiras.
Às vezes, quando se cansava da mesmice da boêmia da cidade pequena, alugava um táxi para ir beber na cidade grande. Lá, depois de alguns copos gostava de se passar por alta patente militar. Era só entrar um soldado no bar ele se levantava na mesa e chamava:
- Soldado, venha cá!
O rapaz de farda aproximava-se surpreso.
- Posição de sentido, soldado!
Atônito o soldadinho ficava sem saber que atitude tomar.
- Já disse, soldado, sentido! Eu sou o major Lara, sentido!
Na dúvida o soldado se colocava em posição de sentido.
- Continência, para o seu superior, soldado!
E o soldado humildemente lhe prestava continência.
- Está dispensado, soldado!
Quantas vezes, Honorinho fez isso. Mas certa noite ele se deu mal. Sem mais nem menos se antipatizou com um loiro alto que estava dando gargalhadas ao lado de sua mesa. Pôs-se de pé e com as duas mãos sobre a mesa se dirigiu ao loiro:
- Quer fazer o favor de parar com essas gargalhadas!
O homem encrespou:
- O quê?
- Quer fazer o favor de parar de dar risada?!
- Olha aqui rapaz- respondeu o loiro já se levantando e apontando o dedo para o peito de Honorinho- quem é você para me dar ordem?
- Eu sou o major Lara do Décimo Sétimo Regimento de Cavalaria e o senhor se considere preso!
O loiro se desvencilhou das cadeiras e se aproximou bufando de Honorinho:
- Mostre-me seus documentos!
Honorinho não tinha. Mas o loiro tinha, puxou do bolso e mostrou: era nada menos do que o capitão Augusto Nunes Vilela, por coincidência do mesmo Décimo Sétimo Regimento de Cavalaria. O capitão fez um gesto para o dono do bar que pegou rapido o telefone. Em pouco tempo uma viatura estacionou em frente ao bar e desceram um cabo e dois soldados:
- Quem é o vagabundo, capitão? – perguntou o cabo .
- Aquele baixinho ali, leva pra dormir na cadeia...
Outra noite, reconhecendo entre os freqüentadores um historiador da região, se apresentou educadamente a ele , mas em seguida soltou:
- Sabia que o seu livro é uma merda?
O livro podia ser mesmo uma merda, mas o autor era um homem sarado, de quase dois metros de altura e se engalfinhou com Honorinho. Depois de muito lhe socar e estapear, jogou-lhe ao chão , pisou sobre o seu pescoço e perguntou:
- Chega ou quer mais?
Ao que Honorinho respondeu esganiçado com o sapato do homem a lhe apertar o pescoço:
- Cansou , filho da puta?
Se para nós, mortais, a verdade é uma coisa muito clara, cristalina, para Honorinho sempre foi muito controversa. Nunca, ninguém, nem sua querida mãe, conseguiu tirar dele uma informação segura, precisa. Por isso, nunca se sabia o que de fato fazia, pensava, sofria ou amava. A impressão de quem o conheceu mais intimamente , como nos versos do poeta Fernando Pessoa, era de “um fingidor, que sente fingir que é dor, a dor que deveras sente.”
O Batata em 1970, aos 30 anos.

Se passava por alta patente que não era, se passava por fazendeiro que não era, se passava por antropólogo com formatura na Usp, que também não era, por piloto de avião, mas sem dúvida era um intelectual: quando não estava bebendo tinha sempre um livro a mão. Mas não explorava seus conhecimentos, sua quase erudição, derramava-a gratuitamente pelos bares procurando com ela sempre um pé para a polêmica, para brigas, ofensas ferinas. Parece que só o contencioso lhe dava prazer.
Nunca ninguém viu Honorinho chorando, ou reclamando da vida. Nunca se culpava de nada, a culpa, se é que havia, era sempre dos outros. Iniciava a bebedeira de maneira alegre, mas com o andar dos copos, transformava-se em amargo, ferino. Amou alguém, se apaixonou alguma vez? Não se sabe.
Além dos bares, também gostava de freqüentar as zonas de meretrício. Entrava no quarto com as mulheres e depois de muito beber e conversar a coisa encrencava e ele partia para cima delas com a cinta.
Certa vez, não se sabe como, arrumou para dar aula de Comunicação e Arte numa faculdade na cidade grande. Começou bem: deu as duas primeiras aulas e depois desapareceu. Os alunos reclamaram e o diretor deu um ultimato a Honorinho: ou dava aula, ou perderia o emprego.
Apareceu na sala de aula e os alunos cobraram sua ausência, afinal, suas aulas eram até que interessantes. Como sempre deu uma desculpa:
- Eu não estou tendo tempo para nada. Nem para lavar a cueca...
Abaixou a calça e mostrou a cueca, realmente quase preta de sujeira. Foi gargalhada geral na classe. Mas o diretor ficou sabendo e não gostou. Honorinho perdeu o emprego.
Voltou para a cidade natal e para os bares de sempre. Dizem que perdeu várias fazendas em bebedeiras e na compra de bobagens. Uma delas , por exemplo: comprou pelo correio um par de escafandros com cilindro e tudo. Certa madrugada a mãe acordou com uma barulheira de água. Saiu da cama e percebeu que o chão do quarto estava todo alagado. Saiu rápida em direção ao barulho que vinha do banheiro e deparou-se com cena insólita: Honorinho e um amigo, com escafandros no rosto e calçando pé de pato mergulhavam na banheira cheia fazendo um barulhão.
- Honorinho, meu filho, o que é isso?!- gritou a mãe desesperada.
- Não se preocupe, mamãe, estamos testando o equipamento.
Nunca se soube que Honorinho tenha mergulhado em rios , em mares, só mesmo aquela vez, na banheira de casa naquela madrugada.
Conta-se também que certa vez, Honorinho se apaixonou ( mas ninguém sabe mesmo ao certo se ele era capaz de se apaixonar) por uma moça muito bonita, também filha de fazendeiros e que nem lhe dava bola. No dia do aniversário dela, o que ele fez? Foi até uma cidade vizinha, comprou sacos de flores, alugou um Teço-Teco e ficou sobrevoando e jogando flores sobre a casa da moça. Todo esforço e dinheiro gasto em vão: as flores acabaram caindo no quintal de uma preta velha . Dizem que a preta até chorou de alegria, pois que rosas lhe caíam do céu. Já a moça nem teria visto , percebido a homenagem.
A paixão, ou interesse, ou desejo de aventura, seja lá o que fosse, parece ter durado. Nos bailes no clube da cidade, Honorinho bebia e não tirava os olhos da moça.O clube tinha dois andares, e o nosso herói estava no de cima, observando com os braços apoiados num parapeito de madeira, a sua bela amada lá embaixo, acomodada à mesa junto com a família. Ela percebia o grande interesse de Honorinho, e podia também até estar interessada, mas evitava o flerte pois sabia que teria pela frente grandes complicações.
Já muito bêbado, inadvertidamente Honorinho colocou o peso do corpo sobre o parapeito e ele quebrou. Foi aquele escândalo, com Honorinho se estatelando lá embaixo sobre a mesa da família da moça. Foi aquela barulheira de garrafas e copos caindo.
Segundo testemunhas, ao cair, um dos sapatos de Honorinho saiu do pé e ficou a mostras uma meia vermelha furada no dedão e um cheiro insuportável de chulé. O caso com a moça parou por aí.
Com o amigo Alexandre Castro Souza Lima

Tempos depois, Honorinho encasquetou que ia ser fazendeiro no Mato Grosso. Como nunca era contrariado a mãe deu- lhe o dinheiro para que comprasse muitos alqueires de terra na região de Amambaí, quase divisa com o Paraguai. Lá iniciaria uma grande criação de gado. E para lá seguiram Honorinho e um capataz de confiança.
O tempo foi passando e de vez em quando chegava uma cartinha: “mamãe, preciso de dinheiro para vacinar o gado”; “ preciso para comprar quinze touros”; “preciso para consertar as cercas...” Não havia mês que não chegava cartinhas pedindo mais dinheiro, mas sempre acompanhada de notícias alviçareiras: “o gado está muito bonito mamãe, gostaria que a senhora visse...” “ Nasceram este mês quarenta bezerros muito saudáveis...” “ Derrubei trinta alqueires de mato e já formei tudo em pastos, o capim está crescendo que é uma beleza...” “Fiz uma reforma e ampliação da casa da séde da fazenda, agora posso hospedar folgadamente às visitas, são doze quartos. Venha mamãe, venha conhecer este lugar que é muito bonito e tenho certeza de que irá gostar muito...”
E a mãe, em sua apaixonada ingenuidade pelo filho, sempre a lhe enviar remessas e mais remessas de dinheiro. Passado um bom tempo, dizem que mais de dois anos, um parente alertou que era bom mandar alguém ao Mato Grosso para ver o que andava acontecendo por lá.
Foi destacado um parente fazendeiro, um sessentão de respeito, que entendia muito de fazenda , de gado e finanças.
Depois de muito indagar o enviado conseguiu localizar a fazenda. Mas ao chegar, deparou-se com cena desoladora: a tal sede da fazenda com doze quartos era nada mais do que uma taperinha velha de sapé com um monte de garrafas de pinga vazia para todo o lado; no terreiro um galo branco e cego e duas galinhas carijós magérrimas. Ali, o enviado só encontrou um cabôclo velho também magro, com as costelas aparecendo e completamente bêbado. Perguntou pelo Honorinho e o velho indicou com o dedo que o “sô Honorim” estava lá pra baixo, no meio do pasto, “ por debaxo dum arvão.”
O enviado se dirigiu para lá e no caminho foi percebendo que a propriedade estava completamente abandonada, não havia pastos, apenas um carrascal danado, as cercas todas caídas , arame farpado enferrujado. Gado? Viu apenas umas duas ou três cabeças de bezerros magros e diarrêicos.
Por fim deparou-se com Honorinho, como indicado pelo caboclo, realmente debaixo de uma grande arvore. Sem camisa, suando em bicas, quase irreconhecível, com as barbas já quase chegando ao umbigo, estava acompanhado do capataz de confiança, de dois índios paraguaios e de umas cinco putas, todos completamente embriagados num ambiente fétido, rodeados de mosquitos. O calor era insuportável e numa vala com fogo insuficiente e muita fumaça que ardia os olhos, assavam churrasco. Carne de aparência horrível. A cabeça da rês, ainda sangrando, se via pendurada ao galho da arvore.
Homem educado, o enviado comprimentou a todos com certa reserva. Mas pouco adiantou a sua tentativa de manter um distanciamento formal daquele bando de bêbados. Logo uma puta, uma morenona com os peitos de fora, lhe enlaçou pelo pescoço, mordeu-lhe os mamilos e agarrou forte o seu pênis.
O enviado deu um pulo para trás, sorriu sem graça, deu uma desculpa dizendo que estava apenas de passagem, que veio só para trazer um bilhete para o Honorinho e que teria que ir embora pois muito ainda tinha que viajar.
Foi difícil se desvencilhar das putas e do Honorinho que também insistia para que ele ficasse, comesse carne, tomasse um golinho... Até sugeriu que também comprasse umas terras na região, pois que muito boas, produtivas e de preço muito convidativo.
Com o enviado já caminhando de volta, Honorinho abriu o bilhete da mãe e leu o que já esperava. Eram as recomendações de sempre: que se alimentasse bem, que estivesse sempre bem agasalhado, que ela todas as noites rezava por ele etc.
Diante do relato imparcial do enviado especial ao Mato Grosso a família se reuniu e, mesmo a contra-gosto da mãe, ficou decidido que as remessas de dinheiro ao filho seriam interrompidas de vez. Pois que especulando pelas redondezas o enviado especial havia descoberto também que Honorinho devia para todo mundo em Amambaí: nos bares, nos armazéns, na Boate Azul, na zona do meretrício e que, não tinha jeito, seria preciso vender a fazenda para saldar todas as dívidas.
Portanto, nada de mandar mais dinheiro para Honorinho pois que a fazenda estava completamente abandonada, quase sem gado nenhum e o rapaz estava torrando todo o dinheiro com putas e pinga. Com a interrupção de recursos, Honorinho seria forçado a voltar para a casa da mãe.

A cada carta de Honorinho que chegava a mãe chorava muito, queria lhe mandar dinheiro, dar tudo o que pedia, mas os parentes não deixavam.
Dito e feito, interrompidas as remessas ele não se agüentou no Centro Oeste. Não passaram dois meses e um dia Honorinho apareceu, maltrapilho, barbudo. Quando a mãe o viu entrar, a sala se iluminou, pois que para ela chegava o homem dos homens. O único sentido do universo. Correu para o abraço:
- Meu filho! Que bom que você voltou!
E logo correu para a cozinha para alimentar o filhote que estava magro, ou como ela mesma disse depois ao telefone a uma amiga:”muito caidinho...”
Mas, apesar da longa viagem , à noite, o “caidinho” já estava no bar.
O canto sacro e o mugido da vaca

Mais um texto do Batata, do fundo do báu, fechado às 16:38 do dia 13 de Setembro de 2001, três dias antes dele completar 61 anos. Nesta foto montagem, usei como pano de fundo a paisagem que ele via todos os dias. Tirou mil fotos deste plano. Até parece que ele retorna à sua velha casa pra tomar umas e outras com os amigos.
Gente chegando. Os vizinhos chegam montados, em carroças ou charretes. Soltam os animais no piquete atrás da capela. Arreata pendurada no telheiro perto da caixa d água.
Os homens chegantes logo formam “rodinhas”. Caçoadas e risadas. Alegria no encontro de camaradas. Cigarrões de palha azulam o ar parado.
As mulheres se aproximam com recato. Em primeiro, entram na capela para honrar o andor da Virgem. Trazem flores e ramos. Júbilo da Páscoa. Perfumes agrestes agradecem o dia festivo. As meninas acompanham as mães. Os moleques correm lá fora.
As confissões terminaram Padre Geraldo anuncia a saída da procissão. Duas filas paralelas são formadas. Homens à direita, mulheres na outra. O padre abre o préstito Carrega o ostensório e vai debaixo do baldaquino de cetim vermelho. Segurando as lanças do baldaquino estão oito fazendeiros da “Ordem de Cristo”. Vestem ópas vermelhas, também de cetim. Crianças vestidas de anjinhos vão logo atrás. O bloco das senhoras do “Apostolado da Oração” puxam as rezas Os Congregados Marianos a as “Filhas de Maria” orientam os cantos O andor de Nossa Senhora Aparecida está entre esses dois blocos e é carregado por oito homens que se revezam Vem a fila das crianças. Em seguida, a dos homens e mulheres casados. As duas alas dos solteiros fecham a procissão.
“Ave, Ave, Ave Maria - Ave,Ave, Ave Maria ” O canto se aproxima da curvinha do Ipê Amarelo, à meio caminho da ida. Logo abaixo está a cerca viva de “mamona-de-leite” que sombreia a caixa d água da colônia de baixo. Desta moita, ninguém até agora pode explicar porque, saiu, no repente, a vaca Fumaça. Parida de novo, vinte arrobas de hindu-brasil com a fama de carregar no cupim o próprio capeta Ela deu uma corrida transversal e, depois apontou na direção do séqüito Foi “memo” que jogar uma pedrinha em cima de um cardume de lambaris. Debandada geral. Alguns moleques treparam no ipê. Cada carregador do andor escolheu uma direção O padre sumiu. Saindo por debaixo da opa, apareceu um revólver. Homens formando um semi-circulo protegendo as mulheres que voltavam para a capela. Décão, valente como sempre, desviou a atenção do animal agitando a bandeira dos “Marianos”. Cuta, chegou montado e dominou a chifrudaRefeito o susto, refizeram a procissão que ficou cheia de risos.
No jantar, padre Geraldo comentou: “Aquela vaca Fumaça me abriu o apetite”. Tudo acabou bem. A bezerra parida se chama Procissão. Linda...
Batata, o Dom Quixote de Altinópolis.

por José Márcio Castro Alves
--- O Batata morreu, disse a minha irmã Ângela por volta das 19 horas do dia 28 de Dezembro de 2009.
Peguei carona com ela e fui pro velório em Altinópolis, chegando por volta das nove da noite. Pouquíssimas pessoas presentes. O Luiz Carlos de Castro Palma (Batata) estava com um terninho preto e camisa de gola bege, com uma gravata listrada de marrom escuro com preto, uma combinação esdrúxula e de um mau gosto indescritível, arquitetada pelos criadores da vestimenta mortuária, a funerária Bom Jesus, de Batatais.
Entufado de algodão nas narinas e a boca colada com super bonder, a expressão facial era a mesma do comediante Cantinflas, com as bochechas estufadas na véspera de pronunciar a sílaba pu, do puta merda.
Nenhuma lágrima foi testemunhada. A expressão de todos era de alívio, visto que qualquer aleijado por erro médico após 10 meses de penitência inigualável, sem pulmão e esperança, ao morrer, desperta a sensação de paz aos que ficam e do infeliz que se foi.
O charlatão que o operou tem ficha suja na sinistra capivara de erros médicos do HC de Ribeirão Preto. Na gaveta desses poltrões impunes, o Batata é apenas mais caso resultante da própria teimosia, incompetência, ignorância, falta de assunto, idiotice e tragédia financeira. O episódio será esquecido em poucos dias, ficando apenas o que interessa: a lembrança daquele homenzinho extremamente carismático e educado enquanto sóbrio, mas deveras alucinado e carregado de empáfia quando bêbado, o que ocorria após umas sete ou oito horas de cerveja.
Nos 50 anos de vida boêmia, o Batata quando bebia, nunca ficaria acordado e bêbado menos que 30 horas consecutivas, sempre varando o dia seguinte a dormindo só na outra noite, ao lado de maços e maços de cigarros e umas 5 ou 6 cervejas no outro dia, no máximo. Quando ia dormir, chegava a varar mais de 14 ou 15 horas num desmaio absoluto. Quando acordava, tomava um banho demorado e depois ia comer após 40 ou 50 horas de jejum absoluto. Nos dias posteriores, escondia de si mesmo para esquecer das loucuras que cometera, indescritíveis em níveis de insanidade alcoólica.

No Pingüim de Ribeirão sentava sozinho com a câmera fotográfica, uma teleobjetiva enorme e um passaporte, colocados em cima da mesa com o propósito de chamar a atenção. Proclamava-se um jornalista dos Diários Associados do Chateaubriant. À mesa, pós ressaca, chamava o padrasto de papai e puxava assuntos amáveis:
--- Papai, me passe a chicória... Bêbado o chamava de Néia, com voz alta e provocativa, sempre escudado no sobrenome Palma, uma trincheira equivocada para erros desnecessários. As vezes, durante algum surto, pegava o telefone e discava para Roma, Namíbia, Brasília, Miami, etc. --- É Palma, gritava quando alguém atendia, ciente de que o outro lado estava a tremer de medo como se estivesse falando com Hitler ou Stalin. Esse era o Batata bêbado e varado, sempre sentado sozinho, pois era insuportável quando alcoolizado.
Assim foi a vida toda. Um homem educado, receptivo e tolerante, agradável e de uma generosa companhia, mas sem álcool. Nos últimos 20 anos, a média dos fogos era de não menos que 6 ou 7 por mês. Sempre a mesma coisa. Começava a beber a tarde num boteco ou na casa dele quando algum amigo levava cerveja e o convidava. Varava a noite e o dia seguinte inteirinho, sempre até as 10 ou 11 da noite. Sempre nas madrugadas, na boquinha do outro dia, pegava a máquina fotográfica e ia pra janela ou a varanda fotografar o romper do dia com seus personagens habituais. Os mesmos personagens sempre sentavam no mesmo banco do jardim defronte a casa, nos mesmos horários. O Batata tirou fotos deles durante 20 anos, sempre no mesmo plano, o mesmo banco e o mesmo fundo, mas sempre se gabando de ter feito uma foto inédita.

Fotografia era o hobby do Batata. Tirou belas fotos e péssimas fotos nos quase 50 anos de máquina na mão. Ótimo papo até as primeiras cervejas e péssimo papo após as cinco primeiras, pois a partir daí encarnava um fazendeiro que não era, um escritor sem livros, um aventureiro sem aventuras, um jornalista com pouquíssimas reportagens, um patrão sem empregados e um coronel sem exército. Mas era um bom contista. Chegou a ser preso em Ribeirão Preto ao passar por um capitão que nunca fora.
Um oficial passara na rua e o Batata o chamou com um estalar de dedos e o nariz empinado:
--- Faça continência. Eu sou o capitão Palma.
O oficial respondeu:
--- Major Bezerra. Seus documentos.
O resultado foi um camburão estacinando no Pingüim em poucos minutos e o Batata levado à delegacia de polícia na Duque de Caxias onde ficou detido por mais de 24 horas.
Ele fez dessas falcatruas inúmeras vezes. Adorava comandar e viver cercado de subordinados, quando moço e quando bêbado.
Ao longo dos seus 69 anos fez inúmeros amigos, sempre admirado por todos. Sóbrio, tinha educação e fino trato, erudição. Leu muita coisa boa e muita porcaria. Achava Altinópolis a capital do mundo. Sem estar de fogo ele era o Batata, bêbado era o Palma, sobrenome do pai que falecera quando ele tinha alguns meses de idade. Herdara em 1940, com a mãe, a metade da fazenda Barra Grande, no município de Serrana. Após um ano e meio, a mãe, tia Filhinha, venderia a propriedade para o rico fazendeiro Mario de Souza Meirelles. Todos diziam que aquele menino era o homem mais rico de Altinópolis em dinheiro vivo, numa época em que quase não existia dinheiro. Após 18 anos, o capital da grande fazenda transformara-se numa boa casa na rua Rui Barbosa em Ribeirão Preto, que lhe rendia uma média de uns 4 salários mínimos de aluguel, em valores de hoje, o que ele gastava integralmente nas orgias de dois dias começadas no Pingüim e sempre terminadas na zona boêmia, sem um tostão sequer quando regressava. Naquelas 48 horas com dinheiro vivo no bolso, o Batata era o rei da gorjeta e o exemplo vivo dos perdulários e dos pródigos. Restabelecido da ressaca e da bebedeira, viajava na imaginação e nas fantasias dos personagens dos livros que lia. A mãe sempre o apoiava e ninguém ousava em contradizer suas fantasias e devaneios mentais, fato que se repetiu ao longo da vida. Não dava o braço a torcer quando era inquirido nas suas invenções de fatos impossíveis, a exemplo de ter tirado brevê e de ter pilotado um avião. O Batata nunca pilotou uma bicicleta sequer, mas andava com passaporte no bolso. Conheceu parte do mundo nos livros e no cinema, mas dizia-se íntimo de celebridades e de lugares que ele nunca conheceu.
Gentil, cortês e fraterno, sempre dava presentes caros a pessoas estranhas para afirmar-se rico. Jamais disse não sei. Eu era o único que o provocava.
--- Batata, quantas papisas existiu?
--- Duas, respondeu, no ato.
Peguei a enciclopédia Barsa e chequei.
--- Batata, aqui não consta nenhuma papisa.
--- Houve sim, inclusive eu estava até comentando isso com o coiso, etc.
Teimava, inventava nomes. Era irredutível.

Quatrocentos milhões de exemplos desse tipo forjariam sua personalidade ao longo da vida. Todos o conheciam e o respeitavam, não dando importância às alucinações lendárias que toda Altinópolis conhecia, de cabo a rabo. Afirmava-se jornalista o tempo todo e íntimo de muitos jornalistas populares, sem nunca tê-los conhecido pessoalmente. Satisfazia-se com essas intimidades e as proclamava com insistência.
Quando o aprentei à jornalista Rosana Zaidan, em 1990, disse que ela era uma jornalista da EPTV, do grupo do dr. José Bonifácio Coutinho Nogueira, família tradicional de São Paulo.
--- Conheci muito o dr. Bonifácio, afirmou à Rosana.
Acontece que o dr. Bonifácio era um homem importante, usineiro e banqueiro, uma pessoa discretíssima e muito reservada.
--- Conheceu onde? perguntou a Rosana.
--- Ele era o meu pediatra, respondeu o Batata, na lata, na bucha.
--- O dr. Bonifácio é advogado, Luiz, formado da USP nos anos 1940, foi político nos anos 1960 e nunca foi médico, respondeu a Rosana.
--- Pergunte pra mamãe. Ele ia sempre lá em casa em Campinas me consultar, me examinava e receitava, etc, etc.
Não deu o braço a torcer sobre o assunto.
Assim foi o Batata a vida toda. Um Dom Quixote desgarrado no tempo. Saudades das suas tiradas e sacadas inimagináveis, onde era muito gostoso ser o seu Sancho Pança, nas bravatas que nos fazia rir da vida e de nós mesmos, de um tempo delicioso e memorável, das aventuras e das infinitas noitadas nos bares, no sítio do meu pai, em Ribeirão Preto, nas mil festas e noitadas, na casa da vó Salomé que se transformou na casa do Batata, uma pessoa visitada por todos a vida toda, numa casa que não mais existe.
No céu, certamente será íntimo de N.S. Jesus Cristo, do qual foi um dos apóstolos. Foi ele que escreveu O Evangelho segundo São Batata, ainda no prelo.
"Milton Botina" pelo Batata.
Dois amigos, desde a infância. Milton e Batata, compadres e amigos. Viveram e se amaram, discutiram e beberam todas. O Milton é dois anos mais velho que o Batata, nascido em 1938. Quando o Milton Lelis Marques morreu, em abril de 2004, aos 67 anos, o Batata estava varado de bêbado e não foi ao enterro. Mas escreveu este texto, de porre, e o publicou com o título Páscoa. Ei-lo, na íntegra, fechado às 15:09 do dia 9 de Abril de 2004.
PÁSCOA
por Luís Carlos Castro Palma
Falam, re-falam. Dizem, contradizem. Voltam, revoltam. Fazem Congressos, Onus e, Concílios e mais reuniões de Pais e Mestres.
É o andamento natural dos humanos enquanto têm almas ajustadas à si próprios e, no momento, diferem um futuro eterno. Temporários sentem e passam discutir a eternidade enquanto ignoram os anos viventes dentro deles. Amanhã é hoje. Ressurreição. Esse é um assunto nosso, de fé, para ser discutido cara a cara com Quem a realizou. Lembro, Anjo da Guarda não assiste, do cujo, o velório. Será que o meu também está triste? Anjo Milton Céu. Feliz.
Re-falo: é muito fácil perder o melhor amigo da vida toda até hoje. O hoje fica assustador. Contradigo, fico alçado com o passado, presente e o futuro só porque o presente domina o momento. Sinto dor. Dor Pura. Aquela que dói sem ter um lugar para doer. Ela vem inteira e exige um lugar para não sentir ela inteira. Essa dói. Dói sem ponto final.

Promessa Paga
Em 10 de Janeiro de 2010 coloquei no ar o Blog do Batata, cumprindo a promessa que fiz a ele quatro dias antes do seu falecimento. Me senti bem ao fazê-lo, mesmo sendo um blog póstumo. Afinal, morrem os homens mas os pensamentos ficam, desde que publicados e lidos. Dezembro de 2009 - quanto é incerto os rumos e destinos de todos nós. O José Fernando de Castro Figueiredo e o Luís Carlos Castro Palma, dois primos insubstituíveis em todos os aspectos, mortos em circunstâncias absolutamente imprevisíveis, os dois em Dezembro de 2009.
Fiz um filme para cada um deles, desses dois grandes amigos de 56 anos de convivência, pois sempre gostei de gravar, filmar e fotografar, acumulando um acervo importante da família.
Os arquivos estarão sempre à disposição de quem quiser, pois, mal comparando, como dizia Pasteur: "Toda teoria deve ser mostrada na prática e todo conhecimento não deve ser escondido".
José Márcio Castro Alves
PÁSCOA
por Luís Carlos Castro Palma
Falam, re-falam. Dizem, contradizem. Voltam, revoltam. Fazem Congressos, Onus e, Concílios e mais reuniões de Pais e Mestres.
É o andamento natural dos humanos enquanto têm almas ajustadas à si próprios e, no momento, diferem um futuro eterno. Temporários sentem e passam discutir a eternidade enquanto ignoram os anos viventes dentro deles. Amanhã é hoje. Ressurreição. Esse é um assunto nosso, de fé, para ser discutido cara a cara com Quem a realizou. Lembro, Anjo da Guarda não assiste, do cujo, o velório. Será que o meu também está triste? Anjo Milton Céu. Feliz.
Re-falo: é muito fácil perder o melhor amigo da vida toda até hoje. O hoje fica assustador. Contradigo, fico alçado com o passado, presente e o futuro só porque o presente domina o momento. Sinto dor. Dor Pura. Aquela que dói sem ter um lugar para doer. Ela vem inteira e exige um lugar para não sentir ela inteira. Essa dói. Dói sem ponto final.

Promessa PagaEm 10 de Janeiro de 2010 coloquei no ar o Blog do Batata, cumprindo a promessa que fiz a ele quatro dias antes do seu falecimento. Me senti bem ao fazê-lo, mesmo sendo um blog póstumo. Afinal, morrem os homens mas os pensamentos ficam, desde que publicados e lidos. Dezembro de 2009 - quanto é incerto os rumos e destinos de todos nós. O José Fernando de Castro Figueiredo e o Luís Carlos Castro Palma, dois primos insubstituíveis em todos os aspectos, mortos em circunstâncias absolutamente imprevisíveis, os dois em Dezembro de 2009.
Fiz um filme para cada um deles, desses dois grandes amigos de 56 anos de convivência, pois sempre gostei de gravar, filmar e fotografar, acumulando um acervo importante da família.
Os arquivos estarão sempre à disposição de quem quiser, pois, mal comparando, como dizia Pasteur: "Toda teoria deve ser mostrada na prática e todo conhecimento não deve ser escondido".
José Márcio Castro Alves
Arranco tatu sem fazer força.

Segundo o escritor Paulo Dantas, biógrafo e amigo de Monteiro Lobato, literatura é denúncia, referindo-se aos escritores Euclides da Cunha e Monteiro Lobato. No caso do Luís Carlos Castro Palma, o Batata, contratado para escrever crônicas semamais sobre a vida caipira, ele desenvolveu uma narrativa de memórias e causos que ouviu contar, sempre enaltecendo os personagens que marcaram sua vida. Neste texto, lavrado em 3 de março de 2003, o herói é Matias, um homem simples, empregado de fazenda.
Arranco Tatu sem fazer força
por Luís Carlos Castro Palma - o Batata
Era fácil reconhecer o dia em que Matias ia tomar uma bebedeira. Vestia, no pescoço, um lenço de seda azul com listras amarelas. Para ajustá-lo, tipo nó de gravata, um broche anelado, feito de chifre, que representava a cabeça de um touro guzerá. Peça bem feita destacava os olhinhos que imitavam rubis (Matias jurava que eram verdadeiros). O adorno era o seu xodó e lembrança de uma viagem a Belo Horizonte.
Caboclo lavrado no machado, Matias era desempenado, alto e forte. Feições que chamavam a atenção pelo queixo forte, nariz de gavião e incríveis olhos esverdeados. Quando moço, ele que era o xodó... das moças.
Casado com Minda (Delminda), criava com paixão um casal de filhos. Era um dos melhores trabalhadores da fazenda. Executava, com gosto e competência, qualquer serviço. No meio dos camaradas mostrava-se alegre, xistoso e muito bom companheiro. Perto de estranhos, ficava meio caladão sem esconder a simpatia. Era muito religioso e todas as sexta – feiras, na Quaresma, convidava o pessoal para cantos e terço na sua casa. Sempre dizia: "Quem sabe amar, ama Deus".
Era econômico, pensava no futuro dos filhos e no bem-estar da família. Sempre aproveitava muito bem a terrinha cedida pela fazenda para os mantimentos; no pastinho da colônia nunca faltou uma criação de sua posse. Horta farta, bem formada e cuidada. Mangueiro e chiqueiro nutrido de porcos. A sua capoeira de aves era melhor que a do patrão e a frangada carijó o seu orgulho. Nasceu na roça, sabia viver na roça.
No sábado qualquer, a mais ou menos cada dois meses, ele tomava um banho quente e bem caprichado. Vestia calça bem passada a ferro, camisa quadriculada. Barba feita e cabelo aparado pelo Dadinho, barbeiro da fazenda. Botinha sanfonada feita pelo Delcidio Malaspina. Preta, para ser luxo. Gastava meia-hora para ajeitar o lenço. As onze e meia, subia no carroção da fazenda que levava o pessoal até a venda do "seo" Miguel. Nestes dias sempre levava um saco onde grunhia uma leitoa bem escolhida. Naquele carroção sempre ponteava uma viola.
Assim eram os agregados

Passado o entusiasmo da alegria da chegada e bebidos os dois primeiros goles, Matias chamava "seo" Miguel para um particular. Negociavam a leitoa e o vendeiro sempre encomendava uns frangos. Tinha o dia na frente. Jogava malha, truco e cantava com o violeiro Zé Tindolfo. Bebia cachaça com capilé, comia manjuba salgada e lingüiça curtida. Tornava-se um daqueles raríssimos bêbedos alegres e sem confusões. Todos conheciam a sua alegria, participavam e respeitavam. O seu brado etílico era: "Hoje eu arranco quarqué tatu sem fazer força". A turma gargalhava e repetia o grito.
Chegava em casa pelas nove horas. As crianças já dormiam. Minda o esperava com amor e uma canja gorda. Sempre ganhava um agrado: um corte de tecido, um vidro de perfume ou uma bijuteria vistosa. Como ela o amava! As crianças ganhavam doces e roupinhas. Matias bebia a canja numa caneca de folha e contava as vantagens do seu dia. Não dormia, desmaiava. A mulher, que havia ajudado ele se despir, só agora conseguia tirar o broche de cabeça de touro e o lenço de seda.
Acordou virado para um lado e o mundo para o outro. O teto girava. A boca tinha o gosto de rojão estourado e a língua parecia uma pedra de amolar canivete. A cabeça, por dentro, não tinha direção, semelhava uma jaca madura que estava balançando para cair. O corpo estava cheio de coceiras mas ele não sabia onde elas se localizavam exatamente. Rangeu os dentes: "Mardita Tatuzinho, nunca mais".
Minda o esperava na cozinha. Ele chegou abatido e meio sem graça. Bebeu quase um copo de café bem quente e foi se lavar, excepcionalmente, na bica de lavar roupa. Na volta, cruzou com Dadinho, que passava pelo terreiro. Não se falaram, mas ambos tiveram uma crise de risos. Na cozinha, comentou com a mulher enquanto empoleirava um filho em cada perna; "Minda tive cada sonho. Sonhei com um corguinho limpinho, cheio de lambari de rabo vermeio. Depois veio outro, esse ruim. Um bando de capetas montou uma serraria num lugar redondo. Não paravam de serrar com aquela serra de fita. Aquela barulhenta igual a da serraria aqui da fazenda. Fui descobrindo que o lugar oco era o oco da minha cabeça. Dói até agora ". Riu e se voltou para as crianças: "E a minha filhotada, ganhou doce? Oceis é o sempre do pai".
Um caipira de opinião.

Escrito em 16 de Abril de 2003
Conservamos a pontuação original do autor, Luis Carlos Castro Palma, o Batata.
Terezo, nasceu neto da Tereza, que era escrava. Alto, ombros largos e manoplas capazes de sustentar um garrote marrudo pelas ventas. Barbicha rala e branca, tipo “ mola de binga“. Vozeirão baixo e profundo, que se escutava de longe. Era de natureza calma, gestos comedidos e a entonação das suas frases tinha algo de eclesial. Reflexo de uma alma mística.
Na juventude, manteve a fama de ser ateu. Coisa rara na colônia de uma fazenda ali pelos anos cinqüenta. Não discutia religião. O seu argumento era irrespondível:“ Nem se Deus viesse conversar comigo, eu ia acreditar nele”. Por menos que pode parecer, não era um revoltado. Alguma coisa aconteceu, dentro ou fora dele, que abafou a sua fé. Isso lhe causava muitos aborrecimentos, por exemplo: não havia na colônia uma mulher, casada ou viúva, que não tentasse heroicamente converte-lo ao bom caminho. As moças tinham medo e algumas diziam que ele era “ primo do diabo “. A mãe chorava, o pai dizia: “ batizar, batizei . Nunca pedi pobrema“. A descrença calma do Terezo incomodava os outros e muitos não entendiam o "porque" do padre Geraldo trata-lo tão bem e até existir uma certa amizade entre os dois.
O rio descia a sua água com moleza. O sol da tarde esfregava cores incríveis. Absorto, Terezo assustou quando percebeu a presença de uma pessoa perto das costas. Virou rápido e deparou a figura de um velho, muito velho. A primeira impressão foi a de que o ancião era cego. Maltrapilho, tremulo ele parecia a mais frágil e solitária das gentes . A segunda surpresa do Terezo foi o tamanho do saco que ele carregava nas costas. Levantou-se, ficou de frente e saudou. Resposta em inesperada voz forte e firme. O chegado colocou o saco no chão e Terezo notou que era muito leve. O farfalhar, ouviu, que eram folhas. Relence, lembrou : ali , por aquelas bandas, aliás, mais para frente, no socavão da Serra do Papagaio, morava um ermitão que entendia a medicina antiga dos antigos . Preparava remédios com ervas e raises, e mais, além de dominar as rezas mais escondidas e bravas. Muitos diziam que era um doido. Só podia ser ele. Conversaram. Terezo esqueceu a vara de pescar e conversaram mais. Noite chegando, acenderam fogo, assaram peixe e conversaram mais. Terezo ia pernoitar na beira do rio para aproveitar o domingo. Passaram a noite conversando. Rio quente pelo sol e a conversa ainda mastigava o assunto deles. Um para cada lado. Despediram os corpos e foram embora.
Terezo creu. Não mudou , apenas mudou uma fé abafada na cabeça para reforçar uma calma , antiga , no coração. Creu em si mesmo porque o ancião lhe desejou, no encontro, uma “ bastardes “ com o amor manifesto no mesmo. Uma alma mística que procurava companheira.
Ana morreu.
Texto do Batata escrito em 4 de Julho de 2002. Boa leitura.
Ana Morreu, por Luis Carlos Castro Palma.
A estradinha até parecia mais amarela embaixo daquela luz do sol das duas horas. Cósca, a cadela, puxava a rota com dificuldade. Magra e manquitola arfa o fôlego. Rastro de três patas na areia quente que coleia o cerrado bruto de natureza e feição. Exausta, resolve procurar sombra. Uma lobeira mais perto. Ajeitou-se ao estender o focinho. Barulhinho. Uma carreira de saúvas fazia oscilar retalhos de folhas. Para não morrer, dormiu. Morreu dormindo. Pura inanição.
Matilha de nove trelas de veadeiros treinados põe respeito a qualquer buzina. Rastro do veado achado, a cachorrada se estrela no ponto. Desatrelados, o cão-mestre Lapórte*, com uivos de chamar demônios, abriu a tribuzana da caçada. Tardinha, volta para a sede. Caçadores lembrando pormenores, cavalos ainda com branquejos da espuma do suor e cachorrada no trote mole do cansaço e do festim das duas presas que devoraram ainda mal mortas, caminhava na frente.
Princesa, cadela nova e espevitada ainda, saiu da estrada. Ganiu um alerta e sustentou. Juntaram latidos. Esporas nos cavalos. Uma paupérrima cadela morta. Caçoadas. Lapórte* saiu meio de lado, levantou o focinho, entesou a cauda e rumou mais para o fundo do cerrado. Instinto, seus lugares-tenentes Toronto e Lucrecia o seguiram. Agora era toque de achado. Acorreram todos.
Gervásio gostava da Ana e ela gostava do Tonico, do retireiro Toniel, do maquinista Dedinho e do primo Zé Antonho. Era ela não tão bonita de chamar atenção de longe. A cor do mel da jataí, os olhos pertencentes da novilha guzerá, cabelos negros apechinhados como caixa de marimbondos agredidos e uma faceirice natural da fêmea que percebe que é fêmea. De perto, chamava a atenção. Mais perto, tornava-se doce e acanhada. Trabalhadeira e honesta como nenhuma.
Amava todos eles porque simplesmente gostava de amar. Aos dezessete anos os corações têm forças de muitos corações e, às vezes, a cabeça sai procurando por todos eles.
O velório, na colônia, seguia tão triste que não havia choro. Ele estava embutido no safanão que deram ao roubar a vida. A morte parecia não ter ficado para valer. Ainda esperavam que ela pedisse desculpa pelo engano e fosse embora meio sem graça.
A senhora, servindo a xícara de café, disse para o delegado de polícia: "Luizinho (ele é filho dela), não concebo acreditar. Para ser advogado tive orgulho, mais porém para ser advogado delegado de polícia não concebo dormir. O teu pai te chamar para ver a Aninha estrompada. Ela, a coitadinha, ainda hoje cedo veio aqui trocar três ovos por uma ração de fermento - fungou e fingiu enxugar os olhos no avental – Mataram ela longe. Foi o estropício do Gervásio do caminhão da linha de leite. Nossa Senhora viu, prende ele".
Pai e filho sorriram. Estavam certíssimos. Sabiam que o assassino da Ana era eu, aquele que precisava escrever uma estória.
Ana Morreu, por Luis Carlos Castro Palma.
A estradinha até parecia mais amarela embaixo daquela luz do sol das duas horas. Cósca, a cadela, puxava a rota com dificuldade. Magra e manquitola arfa o fôlego. Rastro de três patas na areia quente que coleia o cerrado bruto de natureza e feição. Exausta, resolve procurar sombra. Uma lobeira mais perto. Ajeitou-se ao estender o focinho. Barulhinho. Uma carreira de saúvas fazia oscilar retalhos de folhas. Para não morrer, dormiu. Morreu dormindo. Pura inanição.
Matilha de nove trelas de veadeiros treinados põe respeito a qualquer buzina. Rastro do veado achado, a cachorrada se estrela no ponto. Desatrelados, o cão-mestre Lapórte*, com uivos de chamar demônios, abriu a tribuzana da caçada. Tardinha, volta para a sede. Caçadores lembrando pormenores, cavalos ainda com branquejos da espuma do suor e cachorrada no trote mole do cansaço e do festim das duas presas que devoraram ainda mal mortas, caminhava na frente.
Princesa, cadela nova e espevitada ainda, saiu da estrada. Ganiu um alerta e sustentou. Juntaram latidos. Esporas nos cavalos. Uma paupérrima cadela morta. Caçoadas. Lapórte* saiu meio de lado, levantou o focinho, entesou a cauda e rumou mais para o fundo do cerrado. Instinto, seus lugares-tenentes Toronto e Lucrecia o seguiram. Agora era toque de achado. Acorreram todos.
Gervásio gostava da Ana e ela gostava do Tonico, do retireiro Toniel, do maquinista Dedinho e do primo Zé Antonho. Era ela não tão bonita de chamar atenção de longe. A cor do mel da jataí, os olhos pertencentes da novilha guzerá, cabelos negros apechinhados como caixa de marimbondos agredidos e uma faceirice natural da fêmea que percebe que é fêmea. De perto, chamava a atenção. Mais perto, tornava-se doce e acanhada. Trabalhadeira e honesta como nenhuma.
Amava todos eles porque simplesmente gostava de amar. Aos dezessete anos os corações têm forças de muitos corações e, às vezes, a cabeça sai procurando por todos eles.
O velório, na colônia, seguia tão triste que não havia choro. Ele estava embutido no safanão que deram ao roubar a vida. A morte parecia não ter ficado para valer. Ainda esperavam que ela pedisse desculpa pelo engano e fosse embora meio sem graça.
A senhora, servindo a xícara de café, disse para o delegado de polícia: "Luizinho (ele é filho dela), não concebo acreditar. Para ser advogado tive orgulho, mais porém para ser advogado delegado de polícia não concebo dormir. O teu pai te chamar para ver a Aninha estrompada. Ela, a coitadinha, ainda hoje cedo veio aqui trocar três ovos por uma ração de fermento - fungou e fingiu enxugar os olhos no avental – Mataram ela longe. Foi o estropício do Gervásio do caminhão da linha de leite. Nossa Senhora viu, prende ele".
Pai e filho sorriram. Estavam certíssimos. Sabiam que o assassino da Ana era eu, aquele que precisava escrever uma estória.
A lição da carroça.

A Lição da carroça
Artigo escrito em 23 de Março de 2002 às 6:29 da manhã.
Aquele dia não teve escola. Um enxame de abelhas voejava na boca do sino e a professora resolveu dispensar a classe. Os alunos, enquanto desciam acompanhando a mestra, mal escondiam a alegria pela fatalidade acontecida. Professora disse; “ Fiquem em casa. Não troquem e nem suje a camisa do uniforme. Vou pedir para o Marcilio espantar as abelhas. Vocês vão para casa e fiquem esperando o sino tocar. Virem nos pés e voltem para a escola. Vai ter aula”.
Nove horas e meia, nada de sino. Tunísio ajudava a mãe à catar feijão quando o seu pai chegou meio com pressa. “Moleque tire essa camisa branca e vem me ajudar. Não tem escola pruqe o patrão mandou, Mandou eu buscar quarenta teia ali nos Bandeira. Avie pra me ajudar”.
Montaram na carroça e foram buscar as telhas na fazenda vizinha. Ali, para quem conhece sabe, a estrada sobe um trecho da serra e tem uns dois pedaços de pedra, logo depois da curva da capoeira à canhota.
Carroça reforçada e de rodas grandes trelava dois burros. No serviço, só estava o Paçóla, cumpridor para levar a carroça e agüentar nos cascos a descida daquelas dez arrobas de telhas em cima da carroça que tinha breque. Fomos e voltamos com sucesso.
Banho gostoso, a água até parecia mais quente. O Toniquim, meu irmão, tinha arrancado aquele dente mole. Fome, eu estava vazado e meu pai não chegava. Mãe Deolinda serviu o jantar sem falar nada. Dormi de cansaço, sem saber que era dia de pagamento e meu pai ia chegar mais atrasado .
Perto de uns seis depois, no sábado à tarde, ele me convidou para ir até a venda do “seo” Miguel para buscar uma “banda “ de capado, compra do patrão . Fomos na mesma carroça, No caminho reparei para ele que a carroça fazia muito barulho. Paçola, forte e rápido. Disse: “Espere.”
Na volta, mestrou de pai, “ Bote reparo: quando a carroça está vazia, faz barulho, carregada não faz tanto. É que nem a conversa da gente”.
"Bastião" na terra, no céu e na charrete.
O Batata assinou esse texto em 27 de Novembro de 2001. É a cara dele, sem tirar nem por.A carrocinha era tão conhecida, que nem mesmo a cachorrada da colônia, na fazenda vizinha, latia quando ela passava. Afinal, cumpria uma rotina diária de mais de vinte anos. Só com o Bastião do Marcolino eram mais cinco.
“Carrocinha de leite”, tinha lema de carteiro: “faça chuva, faça sol haverei de fazer a entrega”.
Primeiro foi o burro “ Margoso “, que labutou enquanto as suas pernas tinham forças. Depois veio um cavalo branco nomeado “Tenente”. Uma cobra não deixou ele durar muito. Veio a mula, preta, de nome “Locomotiva”, que casqueou quatro anos de estrada Outros aconteceram. Agora, é esse burrinho que não tem bela figura, mas é possuidor de uma força e de uma mansidão que surpreendem Nasceu para aquele serviço.
Com mês e meio já “podia” ir e voltar sozinho se deixassem. O nome dele é “Pitombo” e acho que ninguém sabe porque.Ele quase estreou a troca. Uma charrete. Bastião chutou os pneus antes de montar:
--- Tem cambra de ar?
O padre Geraldo afirmou certa vez, num sermão, que todas as almas são criadas perfeitamente iguais. Nós, com a vida, é quem as mudamos. Entretanto, muita gente acha que a alma do Bastião do Marcolino sofreu um certo capricho na criação. Era de uma natureza tão boa que tinha um esplendor próprio. Nasceu bom como todos, porem a sua alma teve uma força natural para se destacar em bondade Aquele sorriso tímido tinha raízes em alguma coisa sobrenaturalmente eleita. Deus também é homem. Só para lembrar.
Ele fazia qualquer serviço na fazenda, mas aos poucos foi ficando no retiro das vacas leiteiras. Trabalhava bem. O que trazia uma certa irritação era a sua calma. Era incapaz de realizar qualquer coisa com a presteza normal. Nada de preguiça, mas senhor de uma divisão de tempo que era só dele. Em certos momentos, até parecia um aluado. Outra coisa: a sua miopia, criadona como ela só, imprimia em seu semblante uma espécie de expectativa sem curiosidade. Bastião, querido Bastião.
Com idade perto da aposentadoria, tinha como única tarefa levar a charrete até a cooperativa de laticínios. Vida merecida de rei. Ele sempre foi “chegado” numa cachaça. Nunca provocou confusão na vida. Agora a “mardita” era a primeira-ministra do seu reinado. Viviam bem, um com a outra.
Na ida, tudo bem. Sentado na quina dianteira, pilotava com desenvoltura os cascos do “Pitombo”. Entregava, certinho, o leite. Na volta, perto da saída de Brodósqui para Jardinópolis, existia a venda do Alvécio. “Pitombo” esperava o Bastião apear e logo se dirigia, sozinho, para uma garaginha ao lado. Um teto. Se a Terra era o seu reino, a venda era o seu Céu. Muito querido, ali ficava até lá pelas quatro horas da tarde. Quase não falava, mas o seu sorriso era constante. Tinha uma sinceridade. Beiçudo, sorria como os querubins sem dentes. Não fazia bico de anjo, apenas mostrava uma amizade sem regras de boteco. Quem “gozava” naquela candura?
Para voltar, já meio “entornado”, sentava na parte de trás da carroça, recostava-se no latão de leite e deixava as pernas pendentes e soltas Ordenava; Pitombi (sic) , agora é com sua “adireção” de burro bão”. O burro ia parar certinho na porteira do curral. Alguém acordava o Bastião do Marcolino, homem “bão”. Alma de elite naquele corpo tão feio. Para nós.
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As Cruzes.


Provavelmente um dos últimos textos do Batata, escrito em 30 de Janeiro de 2009, fechado às 16:53hs, conforme o indicador do world.
As Cruzes
por Luís Carlos Castro Palma
Uma daquelas histórias antigas contadas junto ao mormaço amigo do fogão a lenha. O pai, olho meio fechado pela fumaça do cigarro de palha, voz amiga e de suspense; a mãe remendando alguma roupa; os filhos moços com ares de entendedores; as moças com trejeitos de mocidade inocente e os menores com olhos redondos pela atenção que prestam. Um estalido do tição traz arrepios e os meninos trocam cutucões com cotovelos.
E a história: Os palhaços de Folias de Reis não são apenas palhaços no significado mais popular. Possuem, na tradição dos foliões de reis, várias funções de importância. Abrem alas para a passagem dos embaixadores da Folia, distraem a atenção dos “esbirros do rei Heródes”, caminham à frente, aos lados e na retaguarda do “térno de Reis” para proteger de toda e qualquer ameaça. Na realidade não são palhaços, apenas se disfarçam para melhor exercer o seu propósito de segurança .Protegem a Bandeira. E mais: recolhem esmolas em nome do Divino Menino. Quanto maior o montante da esmola maior a glória e o prestigio da sua Companhia de Reis. Tempos antigos, longas caminhadas faziam as Folias pelas estradas desertas. No encontro de duas Companhias, em tais lugares, sempre existia uma rivalidade “religiosa” entre as Bandeiras, provocava chistes e altercações maiores. Não passava de bate-boca até quando um palhaço ameaçava tomar as esmolas da outra Folia. Não era ameaça, mas desafio inaceitável. A coisa ficava séria. Os palhaços de cada Companhia simulavam, então, um duelo com espadas de pau. Muitos destes duelos degeneravam. Muitas cruzes pelas estradas contam isso. Aquelas três, também.
A mansidão do barulho.
Em abril de 1999 inaugurei minha primeira morada, minha mesmo, própria, com escritura. Veio lá do Altinópolis, herança tercerizada que me coube da parte do meu avô José Lourenço de Castro, o pai da minha mãe. Avô rico, filho nobre, neto pobre!De grande fazendeiro deixou um sítio para os cinco filhos e aos netos coube alguns ralos alqueires no curso natural das proporções que se afunilam a cada geração.
O meu quinhão transformou-se num apartamentozinho do Jardim Irajá. Na inauguração o Batata e o Difrente lá estavam, como tantos outros.
Lembrei-me deles, dos dois, daquelas noites intermináveis de centenas de encontros...
Aqui vai mais um texto do Batata, fechado em 7 de Janeiro de 2005.
A Mansidão do Barulho
O barulhento casal de maritatacas pousa na paineira. Hortência, continuando a esfregar roupa no batedouro da bica, desvia olhar buscando os pássaros camuflados na folhagem da gigantesca árvore. Endireita o corpo matronal, enxuga as mãos no avental e procura, a favor do sol, uma posição melhor para localizar os barulhentos.
Outros pássaros começam chegar. Logo são dezenas. A cacofonia estridente é tão irritante que até as galinhas do terreiro param de ciscar e olham na direção da algaravia. Joaquim, neto da Hortência, aparece na janela. Loguinho sai ao terreiro, acompanhado pelo irmão menor Tiago, ambos armados com estilingues. A avó passa-lhes um "pito", toma as atiradeiras. Volta ao tanque, enxágua as roupas ensaboadas e as coloca em uma bacia grande. Chega à escadinha que acessa a cozinha, pede uma canequinha com café. Diz: "Vou descansar as pernas no banquinho". Sentada, tira do bolso um cigarro de palha, acende. Recosta-se na parede da casa, olha a arvore amiga cheia de pássaros verdes e procura distingui-los entre as folhas.
Nas baforadas, as lembranças voltaram sua juventude.
Corpo alto e esbelto, torneado em linda plástica das jovens negras. Olhos puxados, porem grandes; testa alta e larga. Boca rasgada entre lábios carnudos. Cabelos geralmente cobertos por lenço branco . Colorido só nas festas. Humor alegre e comunicativo, gostava muito de cantar modinhas e musicas do coro da capela. Dois irmãos mais velhos; pais que mostravam o amor com severidade branda e tranqüila. Vida simples, felicidade suave .
Na festa da capela, reparou que o rapaz bonito reparava nela. Quase assustou quando percebeu que o rapaz era o Sebastião. Foram criados juntos, sempre muito amigos e ela não deu conta o quanto o Tião era tão rapaz.
De ontem para hoje tornou-se bonito e interessante. Ambos, naquela hora, experimentavam sentimentos semelhantes. Perceberam isso. Depois, por tempo, ficaram confusos demonstrando certa indiferença mútua. O namoro aconteceu após negaças . . .
Foi crescendo o amor, foi crescendo, crescendo no feliz casamento. Feliz mesmo. " Feliz até hoje ", pensou Hortência.
Desceu os olhos da copa amiga da paineira para a sombra da imensa árvore. Ali, sentado no banquinho de três pernas, Sebastião caprichava na arte de fazer balaios. Hortência adocicou com jovem ternura o seu olhar.
A filha, esperando a mãe beber o café, comentou:
--- Passarim barulhento. Ainda bem que buscaram rumo.
Hortência respondeu, meio distante:
--- Nem reparei.E sorriu com mansidão realizada...
A confissão de Odilon.

Este texto foi fechado em 2 de março de 2002, as 16:56hs, onde conservamos a pontuação original. O Batata sempre com o pé no passado, reproduzindo histórias e causos que viu e ouviu.
A Confissão do Odillon
por Luís Carlos Castro Palma, o Batata.
Odilon, usando uma velha faca e sentado no degrau da escadinha da cozinha, raspava o barro da sua botina. Pensava: Fazia cinco meses que estava casado e a cada dia que passava se sentia mais feliz. Ele sabia que a Maria Umbelina o faria feliz, mas nem tanto. E mais, daqui a seis meses, seria pai.
O jantar transcorreu tranqüilo. Logo após o café, Umbelina comentou; “Só faltou aquela rapadura com cidra”. Ele notou que ela vinha falando muito na tal rapadura nos últimos dias.
Dia seguinte, durante a matula na lavoura de café, comentou o fato com o seu amigo Geraldinho. É claro que ele sabia sobre os “desejos” das mulheres grávidas. Ficou assustado, porém, quando conheceu os detalhes do que poderia acontecer se esses “desejos” não fossem satisfeitos, Depois do serviço, procurou por toda colônia a tal rapadura. Foi até na casa do patrão. Não encontrou. Inventou uma desculpa, arriou o seu cavalo e deu uma chagadinha até a venda. Voltou sem a bendita rapadura.
Sábado, arrumou pretexto e embarcou no trem da Companhia São Paulo e Minas que o levaria até a cidade mineira de Guardinha. Como o retorno só poderia ser feito no domingo, pousaria na casa do compadre Deoclécio Alves “Sá” Nica se dispôs a cuidar de Umbelina e dormir com ela aquela noite. Foi tranqüilo.
Na Guardinha, a primeira coisa que fez foi comprar três “tijolos” da melhor rapadura com cidra que encontrou. Depois, junto com o compadre e mais dois amigos foi jogar bocha nos fundos da venda do Moisés Bigode. Estava feliz e dormiu em paz depois de umas partidinhas do jogo de “truco”. Domingo, aproveitou para confessar e participar da missa. Voltou com a sensação de missão cumprida. Durante a viagem resolveu guardar a surpresa da rapadura até depois do jantar. Antegozou o momento de felicidade da Umbelina.
Chegou. Abraçou forte e carinhosamente a sua mulher. Agradeceu “Sá” Nica e a presenteou , maliciosamente, com uma rapadura das comuns. Enquanto as mulheres abriam o pacote foi até o quarto e guardou o bornal de viagem. Voltado para a cozinha as mulheres lhe contaram:
- Sabe, Odilon? Vosmece precisa agradecer o “seo” Juca. Ele foi no Altinópolis ontem de noite e Dona Salomé disse pra ele que a Belina estava com desejo de rapadura com cidra. Ele trouxe pra ela.
Odilon só fez abrir a boca e pensar “Deus queria que eu fizesse aquela confissão”.
Mais uma do Batata.

O Batata e o Padre Praxedes
por Marcos Soares Ramos Cabete
Após dois anos de internato, voltei do seminário sabendo fumar e tomar umas e outras, isto com meus 13 anos de idade. Frequentador da casa paroquial, onde conseguia tomar um vinho do padre e fumar um cigarrinho escondido, foi lá que presenciei uma cena e conheci pessoalmente o Batata, que já conhecia de fama.
O baixinho, corpulento e peludo, chegou vestindo um poncho mexicano e avisando que precisava falar com o novo padre que acabara de achegar à cidade. O padre Praxedes o recebeu em seu escritório, mas antes de se sentar, o Batata tirou debaixo do poncho dois grandes revólveres, negríssimos, e os depositou sobre a mesa para espanto do padre.
A conversa foi longa e inverossímel, passando por assassinatos, mulheres, traições e tantas outras coisas que o padre escutou pacientemente por mais de hora, mas terminou em grandes gargalhadas do batata e de todos nós, regadas a cerveja e boa música...
Essa era mais uma das peças que o Batata pregou no novo padre recém chegado à paróquia de Altinópolis...
A coceira voltou?

Essa foto é da primeira comunhão do Luís Carlos, o Batata. Menino rico, mimado e paparicado por toda a família, até então o único neto de Juca Lourenço de Castro e Salomé de Paula Castro, seus tutores legais desde que ficara órfão de pai logo aos dois meses de idade. Neste texto, datado de 30 de Abril de 2004, ele nos leva à infância na roça, precisamente na fazenda Bela Vista, um cenário de muitas lembranças no imaginário do saudoso Batatinha.
A velha mangueira estava carregada com frutos maduros. Há quase uma semana, era visitada pela garotada que voltava das aulas. A maioria preferia derrubar as mangas maduras atirando outras mangas, outros cutucavam com bambu comprido. Alguns se aventuravam trepar na enorme árvore buscando as mais maduras que não eram atingidas pelos " tiros". Joséfe era um deles. Sempre foi destaque. Nasceu lindo e enorme, continuou sendo os dois . Cabelos loiros, pele rosada de bibelô e olhos parecidos com contas azuis. Corpo forte, cofre de alma alegre e generosa. Aventureiro demais, porem.
A turma que consertava um mata-burro, a mais ou menos uns duzentos metros da mangueira, notou que a professora e as meninas que a acompanhavam, voltavam quase correndo. Algo acontecia. Deca, apressado, foi conferir. Joséfe colocava Quinzinho ao ombro. Esse, mesmo sendo o mais ágil, havia escorregado, caído de altura média, e parecia ter fraturado o braço esquerdo. Em choque, não chorava. Revirava os olhos e gemia nos lábios brancos pela dor. A professora pegou o garoto e o recostou no tronco enquanto, ao mesmo tempo, acalmava as outras crianças. Fácil perceber a fratura no ante-braço esquerdo. Com duas réguas escolares e o seu cinto de pano fazia uma tipóia quando Deca chegou. Sentiu-se, então, mais segura. Não demorou muito, os outros trabalhadores chegaram. Avelino, na carroça.
Crianças na faz. Bela Vista

Joaquim foi levado ao hospital de Altinópolis. Nada grave. Doutor Alberto Crivelenti até brincou: "Moleque que não quebra nenhum osso não fica inteiro para virar homem". Sei não, mas até pareceu que Quinzinho trazia o braço gessado como um troféu. Á tarde, na fazenda, todos foram vê-lo. Desde que ele chegou, Joséfe não saiu de perto. Dois dias, a coisa passou.
Quatro dias, a coceirinha apareceu para ficar. Cresceu. Cresceu muito. O gesso já mostrava sinais de unha. O menino não pensava noutra coisa. O seu pai arrumou uma varetinha para ser introduzida entre o gesso e a pele. Pouco adiantou. Depois, adiantava nada. Obsessão coceira. O menino não dormia e até tentou, com faca, tirar o aparelho tormentoso. Tanto fez, que o levaram novamente ao hospital. Retirada a peça, foi verificado que a pele estava quase normal. Dr Antonio Figueiredo passou uma pomadinha qualquer e depois limpou bem. Convenceu o menino que não haveria mais de coçar. Até falou de uma tal "coceira psicológica". Ótimo, três dias e nada da tortura. Assunto esquecido. Joséfe chegou, conversou um pouco e, antes de sair, perguntou: --- E a coceirinha, voltou? Quinzinho arregalou os olhos ...
O aboio da saudade.

Neste texto, datado de 27 de Janeiro de 2005, o Batata retrata uma companhia de Santos Reis na fazenda Bela Vista - Altinópolis, à época de propriedade única do avô José Lourenço de Castro. Até o final dos anos 1970, as companhias de Reis realizavam a Festa do Gongo em 13 de maio, dia da congada, sempre à sombra da famosa Figueira da praça da Matriz, em Altinópolis. O Batata também fotografou muitas festas.
O Aboio da Saudade
por Luís Carlos Castro Palma
O horizonte ainda mostra o amarelo da aurora quando se ouve os primeiros acordes da companhia de reis. Um som triste na forma e alegre no conteúdo. Percebemos o apelo e o agradecimento na melopéia simples e plena de sentimentos purificados na fé genuína do caipira. Aproximando-se, ela se torna comovente e relaxante. Alma de caipira é alma caipira.
O menino está dentro de uma ansiedade ativa. Ora fica na cozinha entre as mulheres que preparam os quitutes. Biscoitos de polvilho, bolos de milho, broas de fubá, bules e bules de café. A cozinha é enorme, porém parece pequena pela agitação. Na verdade, são poucas as que arrumam as "quitandas" nas peneiras de bambu. A maioria é das mulheres da colônia, que ali estão para completar o ar festivo da ocasião. Logo depois o garoto, na sala onde se reúnem os homens da família e mais os convidados, está meio que sentado nas pernas do avô. Não demora muito. Agora percorre o comprido alpendre buscando, entre as arvores do jardim, a posição para visualizar a "colônia da ponte" de onde partirá a companhia de reis da fazenda. A musica chega até ele, lá embaixo o movimento parece pequeno. Nota, entretanto, que uma espécie de procissão se forma. Companhia à frente, lá vem ela. Luiz volta correndo para dentro de casa. Os homens se levantam; as mulheres da casa chegam da cozinha tirando os aventais. As grandes portas de entrada da saleta são abertas completamente. Neno solta as molas da vai-e-vem e as apóia com dois caldeirões. As pessoas que estão perto do portão do jardim, a maioria vinda das fazendas vizinhas, entram, com vagar, no alpendre. Deixam larga passagem para a entrada dos foliões. A família da casa se posiciona na saleta com modo de receber a companhia inteira sob o seu teto. Os primeiros a se aproximar são os palhaços. Na função de protegerem a bandeira, fazem questão de abrir ainda mais o espaço da passagem. Ao pé da escadaria, um apito. Silencio repentino. No chofre, retumbante a musica explode. Antes de pisar o primeiro degrau, o "embaixador" canta saudando e pedindo licença para entrar. Lindo, lindo, lindo. Cantoria caprichada. Todos da família, por sua vez, seguram e beijam a bandeira. Menino extasiado. Quarenta minutos de enlevação. O chefe da casa convida todos para um "cafezinho enquanto as nossas queridas patroas preparam o almoço que será servido mais ou menos ao meio-dia. Isso depois do padre ter chegado, feito o sermão na capela e ter benzido a companhia para o ano que vem".
O café foi mais ou menos rápido porque a companhia de reis ainda teria de visitar as três colônias. As visitas eram feitas no conjunto porque casa por casa seria muito. Casa por casa, só depois.
Santos Reis na década de 1970
Frangos assados e mais frangos assados; leitoas e mais leitoas. Bacias e bacias cheias de macarronadas. Panelões com arroz temperado. Doce de leite, de mamão e de cidra tinha para valer. Convidados das fazendas vizinhas e da cidade. O almoço era oferecido por todos da fazenda cada um dando a sua parte dos alimentos e dos preparativos. A organização era por conta de uma comissão de festeiros sorteada a cada ano sendo o fazendeiro o único efetivo.Essa tradição permanece até hoje em alguns bairros rurais da nossa região. Em Santo Antonio da Alegria, SP, no bairro Pinheiros, por exemplo, ela é viva e famosa. Em Altinópolis acontece todos os anos. É o Aboio da saudade.
Sitio dos Cabete, palco de folia de Reis
Marcos Soares Ramos Cabete, um outro altinopolense da gema, também foi testemunha das cantorias de ReisFui vizinho da Bela Vista, famosa e movimentada fazenda de nossa querida Altinópolis. Morei no Sítio São Judas Tadeu que todos conheciam pela "Venda da Dona Helena", minha avó paterna. Cheguei a frequentar algumas destas festas da Bela Vista quando criança. A Folia de Reis também passava todos os anos por nossa casa onde armávamos um presépio com um pedaço de espelho formando um lago com areia branquinha e finíssima, que buscávamos no "Brejão". Para a grama colhíamos com uma faca os musgos das pedras e árvores de volta da casa.
Depois que passava a Folia de Reis vinha a nossa foliada na hora de passar escovão com palha de aço e encerar novamente a sala de piso de madeira do casarão construído em 1919.
Marcos Soares Ramos Cabete
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